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Setor · Segurança pública

Os óculos são os mesmos. O que muda é quem está no banco de dados

Dezesseis casos. Sete foragidos presos num portão de estação em 2018, mil policiais num desfile em 2026, dois estudantes de Harvard identificando desconhecidos na rua, e o órgão que proibiu os próprios agentes de usar.

Este é o setor em que a tecnologia é a mais fácil de descrever e a mais difícil de discutir. Uma câmera no rosto compara o que vê contra uma lista. Se isso é trabalho policial ou vigilância, quem decide é inteiramente a lista, e não os óculos.

O resultado concreto mais antigo é de fevereiro de 2018, na estação ferroviária de Zhengzhou Leste, durante o pico de viagens do Ano-Novo chinês. A polícia ferroviária usou óculos de reconhecimento facial de 33,4 g, da Beijing LLVision, em quatro portões de entrada, comparando passageiros contra uma base local no próprio aparelho. A operação pegou 33 pessoas: 7 foragidos procurados, inclusive por tráfico de pessoas e atropelamento com fuga, e 26 viajando com documento de identidade de outra pessoa. O fabricante alegou 0,1 segundo de comparação contra uma base de 10.000 pessoas em teste, e esse é um número de fabricante. E a discussão chegou junto com a implantação: a Radio Free Asia noticiou dissidentes em Guangdong que esperavam ver os óculos apontados para peticionários e manifestantes, enquanto um acadêmico de Pequim argumentava que o sistema serve à segurança pública comum. As duas coisas foram ditas na época, então as duas estão aqui.

O que está rodando agora

Na China os óculos viraram equipamento de rotina. Policiais em Tianjin usam em patrulha para ler texto e objetos e ajudar a localizar pessoas desaparecidas. A polícia de trânsito do condado de Jinyun relata melhora de cerca de 300% na eficiência da checagem de veículos de interesse na beira da estrada; Haikou relata o percurso da identificação até o alerta se completando em cerca de 30 segundos. Chengdu combina os óculos com robôs humanoides e cães robôs, e o plano de trabalho de 2026 de Shenzhen põe a adoção em todo o órgão como meta. Todos esses números vêm dos próprios departamentos, por uma única reportagem, sem medição independente.

Em janeiro de 2026 a Polícia de Delhi pôs óculos com IA que juntam reconhecimento facial e imagem térmica em mais de mil agentes ao longo do percurso do desfile do Dia da República, comparando offline contra uma base local cifrada de cerca de 65.000 registros, com limiar de 60% de semelhança, e o rosto sem correspondência aparecendo em verde e a correspondência em vermelho. Nenhuma das fontes que encontramos diz quantas pessoas foram sinalizadas ou presas. Essa ausência é o fato mais importante do caso.

Onde não pegou

Os Estados Unidos em geral testaram e pararam. Byron, na Geórgia, fez um teste de um dia com Google Glass rodando software de gravação, sem reconhecimento facial e sem leitura de placa, e decidiu não comprar: bateria curta, volume a mais no equipamento e o custo de adaptar lente de grau para os policiais. Centerville, também na Geórgia, adotou a partir de março de 2015, simplesmente como câmera corporal sem as mãos. O NYPD testou em beta e, nas fontes revisadas, nunca confirmou implantação. A Holanda fez um estudo formal com Leiden, Twente e a academia de polícia, e relatou reação inicial positiva sem chamar aquilo de implantação.

Aí a coisa virou

Ao longo de 2025 e 2026 a 404 Media documentou agentes do ICE e da CBP usando óculos Ray-Ban Meta de consumo em operações de imigração em pelo menos seis estados, incluindo uma batida na porta de uma Home Depot em Los Angeles. Em agosto de 2026 o ICE proibiu: um memorando assinado pelo diretor interino David Venturella classificou os óculos como câmera corporal pessoal não autorizada, capaz de captar ou transmitir informação sensível, cerca de um mês depois de o órgão ter comprometido 30,9 milhões de dólares em câmeras corporais convencionais. Enquanto isso, uma justificativa orçamentária vazada do DHS para o ano fiscal de 2027 pede 7,5 milhões de dólares para construir óculos próprios do ICE com reconhecimento facial, leitura de íris e análise de marcha contra uma base biométrica noticiada em cerca de 75 milhões de registros. Esse é pedido de verba, não produto.

E a versão que qualquer um monta

Dois estudantes de Harvard, AnhPhu Nguyen e Caine Ardayfio, ligaram óculos Ray-Ban de consumo ao buscador facial PimEyes e a consultas de registro público, com um modelo de linguagem costurando as respostas, e identificaram desconhecidos na rua em tempo real, com endereço residencial e parentes. Uma das pessoas abordadas confirmou que os dados estavam certos. Eles não publicaram o código, e disseram que grandes empresas de tecnologia também tinham segurado ferramentas equivalentes. Depois disso, a ACLU, a EFF, o EPIC, a Access Now e outras 75 organizações escreveram à Meta exigindo que ela abandone um recurso noticiado de identificação de rosto para os óculos Ray-Ban e Oakley e revele qualquer conversa com o ICE e a CBP, citando protestos, clínicas médicas e a segurança de sobreviventes de violência doméstica. Até a redação deste texto a Meta não havia assumido publicamente nenhum desses compromissos.

Casos citados

  • Quem
    Delegacia da Rua Jiefang, subdivisão de segurança pública do distrito de Heping
    O que fez
    Policiais usam óculos inteligentes com IA de desenvolvimento nacional em patrulha para identificar texto, objetos e pessoas, e para ajudar a localizar desaparecidos (caso citado: um idoso desaparecido).
    O que saiu disso
    O policial Zhao Baoxin relatou que patrulhas e checagens ficaram visivelmente mais eficientes; o departamento apresenta a ferramenta como melhora na detecção proativa e na resposta a emergência.

    www.chinadaily.com.cn

  • Quem
    Polícia de trânsito, departamento de segurança pública do condado de Jinyun
    O que fez
    Policiais de trânsito usam óculos com IA para checagem de veículos de interesse na beira da estrada (verificação de placa e de identidade) durante paradas de patrulha.
    O que saiu disso
    Relatada melhora de cerca de 300% na eficiência da checagem de veículos de interesse na beira da estrada.

    www.chinadaily.com.cn

  • Quem
    Polícia de trânsito, departamento de segurança pública de Haikou
    O que fez
    A polícia de trânsito usa óculos inteligentes com IA para reconhecimento de placa e de identidade no local, em torno de zonas restritas como áreas escolares.
    O que saiu disso
    O processo inteiro, da identificação ao alerta, é relatado como concluído em cerca de 30 segundos.

    www.chinadaily.com.cn

  • Quem
    Departamento de segurança pública de Chengdu
    O que fez
    Implantação integrada combinando robôs humanoides, cães robôs e óculos inteligentes usados pelos policiais para cobrir ao mesmo tempo patrulha aérea, terrestre e individual.
    O que saiu disso
    Apresentado pelo departamento como extensão da cobertura das tarefas de patrulha e inspeção; nenhum número independente de eficiência foi informado.

    www.chinadaily.com.cn

  • Quem
    Departamento de segurança pública de Shenzhen
    O que fez
    O plano de trabalho de segurança pública de 2026 pede explicitamente o aprofundamento da aplicação prática de óculos inteligentes com IA e robôs de patrulha em todo o órgão.
    O que saiu disso
    Compromisso de política noticiado; alcance da adoção e resultados ainda não quantificados na fonte.

    www.chinadaily.com.cn

  • Quem
    Departamento de Segurança Pública Ferroviária de Zhengzhou, com óculos da Beijing LLVision Technology (北京亮亮视野科技有限公司)
    O que fez
    Policiais usaram óculos de reconhecimento facial (33,4 g, base de dados local no próprio aparelho) em quatro portões de entrada da estação de Zhengzhou Leste durante o pico de viagens do Ano-Novo chinês de 2018, para comparar passageiros contra uma base de procurados e detectar uso fraudulento de documento.
    O que saiu disso
    33 pessoas pegas na operação: 7 foragidos procurados on-line (inclusive por tráfico de pessoas e atropelamento com fuga) e 26 pessoas usando documento de identidade de outra pessoa; o fabricante alegou comparação em 0,1 segundo contra uma base de 10.000 pessoas em teste. A implantação provocou discussão pública: a Radio Free Asia noticiou dissidentes em Guangdong temendo que os óculos fossem apontados para peticionários e manifestantes, enquanto um acadêmico de Pequim argumentou que o sistema serve à segurança pública em geral (https://www.rfa.org/mandarin/yataibaodao/renquanfazhi/ql1-02092018095919.html). Um terceiro relato da mesma operação, com os mesmos números 7 e 26, está em https://www.secrss.com/articles/1030.

    m.thepaper.cn

  • Quem
    Polícia Nacional dos Países Baixos (Korps Landelijke Politie), com a Universidade de Leiden, a Universidade de Twente e a academia nacional de polícia
    O que fez
    Estudo-piloto que equipou policiais de patrulha montada e a pé com óculos inteligentes AR Vuzix Blade para orientação de rota sem as mãos, notificação de crime e informação de perseguição a suspeito, depois de teste prévio em laboratório.
    O que saiu disso
    A Vuzix relatou reação inicial positiva dos policiais no teste de campo do verão de 2020; tratado pela corporação como estudo formal de pesquisa, ainda não como adoção plena.

    siliconangle.com

  • Quem
    Polícia de Delhi, com óculos de IA feitos pela empresa indiana de tecnologia profunda AjnaLens
    O que fez
    Mais de mil agentes usaram óculos com IA combinando reconhecimento facial e imagem térmica ao longo do percurso do desfile do Dia da República de 2026 (Kartavya Path), em pontos de entrada e outras zonas de aglomeração, checando em tempo real e offline contra uma base cifrada e armazenada localmente de cerca de 65.000 criminosos, foragidos declarados, suspeitos e desaparecidos (limiar de 60% de semelhança; algoritmos treinados para lidar com máscara, maquiagem, barba, corte de cabelo mudado ou foto desatualizada). O display emoldura em verde o rosto sem correspondência e em vermelho a correspondência.
    O que saiu disso
    Empregado na operação de segurança do 77º desfile do Dia da República e descrito pela polícia como seu primeiro uso em larga escala de óculos inteligentes com IA para segurança de desfile; nenhuma das fontes informa contagem de sinalizações ou de prisões. Segundo relato, de outro veículo: https://www.businesstoday.in/india/story/republic-day-2026-delhi-police-to-use-ai-gear-to-monitor-parade-crowd-at-kartavya-path-512822-2026-01-25.

    www.deccanchronicle.com

  • Quem
    Departamento de Polícia de Byron (Geórgia, EUA), com a Georgia Tech e a fornecedora de vigilância CopTrax
    O que fez
    Teste de campo de um dia com Google Glass (carregado com o software de gravação CopTrax, sem reconhecimento facial nem leitura de placa) durante abordagens de trânsito, uma prisão e prática no estande de tiro.
    O que saiu disso
    O departamento decidiu depois não comprar os óculos, citando bateria curta, volume a mais no equipamento e o custo de adaptar lente de grau para os policiais.

    www.govtech.com

  • Quem
    Departamento de Polícia de Centerville (Geórgia, EUA)
    O que fez
    Adotou os óculos inteligentes Stalker CopTrax como câmeras corporais para vídeo de patrulha de rotina, com a revisão e a retenção supervisionadas pelo chefe e pelo chefe adjunto conforme as regras de retenção de prova da Geórgia; os óculos também repassam direções, mensagens e chamadas quando pareados ao celular do policial.
    O que saiu disso
    Postos em uso contínuo de patrulha em todo o departamento a partir de março de 2015, funcionando como alternativa sem as mãos à câmera corporal presa ao peito.

    www.govtech.com

  • Quem
    Departamento de Polícia de Nova York (NYPD)
    O que fez
    Testou em campo o Google Glass para "fins de patrulha" em geral, isto é, acesso sem as mãos a alertas e informação durante o patrulhamento a pé.
    O que saiu disso
    Noticiado como avaliação em estágio inicial; o NYPD não confirmou implantação plena posterior nas fontes revisadas.

    www.police1.com

  • Quem
    Agente da Alfândega e Proteção de Fronteiras dos EUA (CBP), como parte de um padrão mais amplo entre agentes do Serviço de Imigração e Alfândega (ICE)
    O que fez
    Agente foi filmado usando óculos inteligentes de consumo Ray-Ban Meta durante uma batida de imigração na porta de uma Home Depot; a 404 Media documentou avistamentos semelhantes de agentes do ICE e da CBP usando os óculos em operações em vários estados ao longo de 2025 e 2026, levantando a possibilidade de o material ser jogado em busca por reconhecimento facial ou em consulta a bancos de dados policiais.
    O que saiu disso
    Provocou escrutínio público sobre agentes usando dispositivos pessoais de gravação e IA durante ação de fiscalização, o que alimentou diretamente a proibição posterior do ICE em todo o órgão (ver o caso de regulação correspondente).

    cybernews.com

  • Quem
    Serviço de Imigração e Alfândega dos EUA (ICE), memorando assinado pelo diretor interino David Venturella
    O que fez
    Diretriz válida para todo o órgão proibindo qualquer funcionário do ICE de usar em serviço os óculos com câmera da Meta (ou aparelhos semelhantes), classificando-os como câmera corporal pessoal não autorizada, capaz de captar, gravar ou transmitir informação sensível sem intenção.
    O que saiu disso
    Proibição formal emitida e em vigor; veio cerca de um mês depois de o ICE ter comprometido, em separado, 30,9 milhões de dólares em câmeras corporais convencionais.

    www.theregister.com

  • Quem
    Departamento de Segurança Interna dos EUA (DHS), Diretoria de Ciência e Tecnologia
    O que fez
    Justificativa orçamentária vazada do ano fiscal de 2027 pede 7,5 milhões de dólares para desenvolver óculos próprios do órgão, os "ICE Glasses", com reconhecimento facial em tempo real, leitura de íris e análise de marcha, ligados a uma base biométrica federal noticiada em cerca de 75 milhões de registros; vem junto com relatos de que alguns agentes já usam ferramentas comerciais de reconhecimento facial em aparelhos pessoais.
    O que saiu disso
    Programa ainda em fase de financiamento e planejamento na data da reportagem; não implantado.

    fortune.com

  • Quem
    AnhPhu Nguyen e Caine Ardayfio, estudantes da Universidade Harvard (projeto "I-XRAY")
    O que fez
    Prova de conceito aberta e não publicada que juntou os óculos inteligentes Ray-Ban de consumo da Meta ao buscador facial PimEyes e a consultas de registro público, com um modelo de linguagem costurando os resultados, para identificar desconhecidos por nome, endereço, telefone e parentes em tempo real a partir de uma transmissão ao vivo; demonstrado em estudantes e em pessoas na rua que não sabiam do teste.
    O que saiu disso
    Identificações confirmadas como corretas (uma das pessoas confirmou que o endereço residencial e os nomes dos pais tinham sido levantados corretamente); a dupla se recusou a publicar o código, dizendo que grandes empresas de tecnologia também tinham segurado ferramentas equivalentes, e a demonstração virou peça central no debate de política sobre óculos com reconhecimento facial, citada na campanha liderada pela ACLU contra a Meta.

    www.404media.co

  • Quem
    ACLU, EFF, EPIC, Access Now e 75 organizações cossignatárias (coalizão "Eyewear, Not Spyware")
    O que fez
    Carta pública exigindo que a Meta suspenda e renuncie a planos noticiados de acrescentar um recurso de reconhecimento facial chamado "Name Tag" aos óculos inteligentes Ray-Ban e Oakley, que deixaria qualquer usuário identificar um desconhecido pelo nome em tempo real, e que revele qualquer ligação ou conversa com o ICE e a CBP sobre aplicação da lei; a carta cita identificação em protestos, clínicas médicas e estabelecimentos, e alerta para o risco a sobreviventes de violência doméstica, manifestantes e críticos do governo.
    O que saiu disso
    Campanha de advocacia em curso; a Meta não havia, nas fontes revisadas, assumido publicamente os compromissos de divulgação pedidos até a redação.

    www.aclu.org

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